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sobre meninos e o mundo como o temos:

a vida é dura. há o sabor, mas há muito mais dessabores, como sabemos, ou deveríamos. hoje perdi um amigo. mais um. foram três nos últimos meses. um tempo triste esse. um tempo de guerra. um tempo de ódio e de reconstrução. mas esse dia, de hoje, me fez refletir sobre muitas questões. lembrei, inclusive, de um texto que escrevi um tempo atrás, um texto que fiz para um amigo que partiu, um menino - talvez sejamos todos meninos ainda... talvez. tenho poucas certezas, mas uma delas é que essas garotas, as tais feministas, feminazis como querem alguns, tem razão. o machismo deve ser combatido. e não apenas por ser opressor para com o sexo feminino, mas por oprimir meninos como a gente. muitos de nós, inteligentes, bonitos, talentosos, articulados, críticos, fazemos de conta que nada é nada e, aos poucos, quase sempre, seguimos nos matando lentamente. 

este texto não é sobre feminismo, nem é sobre você, mas poderia. esse texto é sobre um menino que se matou. lá se vão alguns anos e dia desses eu tentava lembrar o seu nome. a gente esquece, o tempo passa. agora eu sei, graças a um outro amigo. mas sei mais, sei que esse mundo, esse tempo, podem nos proporcionar novas visões, novas relações. não só às mulheres ou entre nós, meninos, mas da gente consigo mesmo, com nosso corpo, nossa vida. esse texto é sobre o menino dentro de mim, esse que eu vim matando devagarinho. note, não sou machista. não exatamente, mas me deixei levar pela lógica ao meu redor, a lógica que oprime e nos faz querer ser imortais. estou falando de beber demais. estou falando de dormir mal. estou falando de cocaína. estou falando de cigarros diários. estou falando de jogar as tristezas para baixo do tapete. 

tenho duas filhas, amo essas garotas e quero lhes ser presente. não pretendo me matar, a despeito do mundo em que vivemos não ser lá muito acolhedor. não pretendo nem me matar aos poucos, devagarinho...

segue o texto que escrevi para um menino que partiu. dedico aos meus amigos como um pedido, fiquem, sejamos fortes.

___________

"(...) soube agora a pouco, meu querido, que, logo você, com quem eu tomava longos e divertidos cafés, acabou com a própria vida.

éramos um grupo animado, lembra? eu não esqueço. dos nossos amigos, um está na frança fazendo doutorado e os outros estão por aqui. aquele que era da sua turma e que tinha uma risada engraçada, escreve inúmeros artigos sobre artes plásticas e tem um livro publicado. outros dois, os que tinham uma banda com um nome escatológico, estão fazendo coisas, um alimenta um blog e o segundo está em tubarão trabalhando na área de cultura. outro já não vejo, mas esse eu sei que continua dando aula e escrevendo – sim, nosso querido amigo professor de literatura brasileira acabou de publicar mais um livro com poemas (eu li no jornal dia desses). tem uma que foi pra brasília – e está ganhando bem – e os outros estão por aí, e vão sentir sua falta. 

nos encontrávamos diariamente e contávamos os centavos pro café... quando não havia grana saíamos do r.u. pra algum laboratório de lingüística ou de literatura em que algum bolsista amigo nos deixa filar um pouco do nosso néctar. nós gostávamos de café e, se não me engano, além de adorar tirar sarro dos nossos colegas, acho que fazíamos aniversário no mesmo dia... e fazíamos mais coisas, comentávamos as aulas de raúl antelo e íamos aos cafés literários do sesc pra comer e discutir questões que achávamos importantes e assistíamos filmes e peças e shows que rendiam longos papos cheios de citações e escárnio. líamos de tudo, e éramos críticos ferozes... lembra do rico esculachando o mirisila e dizendo que deveríamos largar tudo e ler onetti?!? 

foi naquele período que me vi uma fraude, não tinha saco pra academia, não tinha vontade de ler foucault ou said com lápis na mão (aliás, até hoje não terminei o primeiro capitulo dos fragmentos do discurso amoroso, sabia?!?). mas tem uma coisa que não te contei, foram vocês que me ajudaram a perceber isso – que eu não era intelectual. admirava e invejava esse seu senso de humor ácido e quase infantil, esbanjando uma inteligência rara (porra, você aprendeu romeno sozinho – e só pra tirar um onda!).

ah, meu querido, nem sei ao certo o que dizer, mas estou chocado em saber que não mais nos cruzaremos por aí. aliás, percebi agora que faz um ano que não nos vemos... triste. um grande abraço pra você (...)".

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